sábado, 20 de fevereiro de 2010

Sob as flores

Era um lindo período de verão, daqueles que o Sol, ao riscar ríspidos raios pela pele, aquece tranqüila e prazerosamente todo o corpo. Nada o afligia, nem mesmo as sessões de filmes de terror com os amigos, no calar da noite.

Sentia-se pleno, virtuoso e com uma vida de dar inveja a qualquer Ser que poderia ter o prazer pelo respirar. Tudo era diferenciado: os carros pareciam carroças servis, pois paravam instantaneamente à sua presença; os pássaros se rebelavam uns contra os outros para ver quem emitia o som mais agradável aos seus ouvidos; as árvores apresentavam um esforço descomunal para tentar produzir o fruto mais saboroso que pudesse ser apreciado por sua boca; e o vento soprava fortemente à sua frente, para que todo o lixo fosse expulso perante sua caminhada.

Entre todos os modos, podia ser dito que até a natureza estava ao seu favor. Muitos não acreditavam, questionavam se aquilo seria sorte ou algum produto maléfico a qual não se aproximar. Nem mesmo ele entendia porque passava por tais momentos prazerosos, mas sabia que deveria aproveitar o máximo daquela estranha sorte.

Porém, como em toda história que se preze a alegria, existem os momentos de fraqueza, de tempestades. Não seria diferente com nosso amigo: durante o passar de um esplêndido dia, ao dito de um ilustre passeio pelo parque, seus brilhantes e infames olhos perceberam algo que jamais vira na vida, duas belas flores, singulares em seu formato e consoante sua beleza, traziam uma intriga interessante.

Poucos seriam as pessoas que perceberiam tal acometimento, mas uma das flores, de cor vermelha e intensa como uma chama, porém delicada e suave como uma seda, tentava sobrepor-se a uma flor amarela, pequena e frágil como uma formiga, porém tão linda e brilhosa, aparentando uma força exorbitante em seu caule, retrocedendo a qualquer modo a investida de sua companheira.

Era algo extremamente incrível a sua vista, porém intrigante aos seus conhecimentos. Sua fascinação àquele momento foi tão forte, que mal conseguia pensar em outra coisa que perpassasse ao seu redor. Era difícil entender, mas o que parecia ser admiração tornou-se um vício, pois uma sinuosa angustia tomava suas entranhas: Qual das duas sobreviveria àquela épica batalha?

Após aquele momento, todos os dias ele tirava um bom tempo para visitar sua nova distração, aflito em saber se uma já havia esmorecido de sua luta. Mas era sempre a mesma coisa, ambas tornavam a estar na mesma posição. Às vezes, “sentia no fundo do coração” que aquelas duas belas flores brigavam por um espaço maior para que melhor fossem observadas durante sua presença. Era um intuito estranho, porém normal a quem disputava a atenção de toda a natureza.

Ao passar dos dias, ainda entornado pelo verão, seus vícios por aquelas criaturas foi se tornando um tanto descontrolado, pois nem ele sabia qual mais amava e quem despertava mais sua atenção, pois, mesmo diferentes, cada uma despertava um sentimento ímpar em sua vista. E após tanta aflição por tal situação, tomou uma decisão quase insana, porém certa segundo seus ideais: Estava na hora de decidir quem ganharia tal batalha e se tornaria sua flor preferida.

Pensara com firmeza por que estava a querer aquilo. Como algo tão simples poderia destruir a mente de um homem tão sortudo? Para cada resposta vinha uma aflição, mas com convicção optou por continuar. No outro dia retornara ao mesmo local de sempre e, esperando o Sol clarear suas lindas flores (queria que respirassem ao menos uma última vez), retirou uma pequena tesoura do bolso, simbolizando metaforicamente sua decisão. Então, escondido pelas lágrimas entoadas em seus olhos, cortou a metade de uma parte da sua vida, metade de um amor que jurou jamais esquecer.

Nenhum comentário: