sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Estrada de barro

Trabalho infantil – Honor de Almeida Neto


03h30min - É o inicio de um novo dia. Com um Sol ainda ausente sobre o seu olhar, buscava na escuridão do quarto qualquer objeto que lhe indicasse a certeza de estar em casa, pois desejava intensamente que tudo fosse um sonho (ou um pesadelo) que passara despercebido. Infelizmente não se fazia por obedecido. Descontente, percebia que o corpo não respondia de imediato aos comandos, por um desgaste devidamente físico e mental, mas como numa obrigatoriedade sagrada, era necessário um súbito ato de levantar e continuar a vida alienada de sempre.

03h39min - São exatos 9 minutos para se arrumar à luz de um candeeiro, localizado na parte central de sua casa (ou cubículo). Nada pode lhe atrapalhar, pois o caminho é longo e desgastante. Um simples segundo de atraso é o suficiente para o ardor de gestos múrmuros e dolorosos em sua epiderme posterior. Durante sua passagem pelos singelos cômodos da casa, contém-se em presenciar o vazio à sombra da minúscula tábua imunda com quatro pernas, rodeada de pequenos tamboretes feitos com material de 2ª mão, mas que significavam tanto para o sustento de sua família. Paralelamente significativo a um brinquedo de milésima geração para uma criança com a mentalidade dos tempos das cavernas.

04h30min - A passos exaustivos de uma longa caminhada de exatos e cronometrados (Em sua mente) 50 minutos, chegava ao destino com uma modesta perspicaz ao de um (n)obre que, mesmo (p)obre ao olhar de muitos, era rico ao olhar invasivo de uma criança (perceba a imensa diferença que uma letra pode ocasionar). Não se abalava. Sempre estava a brincar, mesmo cansado e, surpreendentemente, via nas suas caminhadas matinais (ou madrugais) um espaço para correr, gritar, cair e brincar com a variedade de bichos que avistava (Quanto já sonhara em ser um grande biólogo.

04h35min - Chegava à hora de ver, ouvir e sentir as dissonâncias vocais daquilo que chamava de patrão, sempre lembrando com imensa tristeza das marcas deixadas pelos dias anteriores. Mas, com um lastimável receio de chegar em casa sem suas miseráveis “bonificações”, não possuía ânimo para enfrentar qualquer homem ou dragão rural das propriedades em que “trabalhava.

11h00min - Foram passadas horas de intensos movimentos desgastados que davam a impressão de dias. Mas era chegada a hora do descanso, da satisfação pelo estático, mesmo que por alguns minutos, sentia-se prazeroso pelo momento. Recebia uma espécie de cuia que trazia algo desconhecido ou irreconhecível, mas que era sua reserva energética de todo um exaustivo dia. Tinha que amordaçar aquela pasta incolor em sua cavidade oral, desgastada pela falta de dentes e recriminada pela falta de palavras perante a presença de dezenas de rostos similares ao seu, que traziam a mesma expressão de angústia.

11h30min - Já havia passado o tempo de descanso e o restante do dia serviria para se abdicar de tudo novamente. Em gestos repetitivos e mecanizados, era responsável por uma pequena porcentagem (minúscula, dado em conta o numero de colegas) da estocagem de produtos essenciais ao seu país. Claro! Acima de tudo era brasileiro e pensava na independência mercadológica, na produtividade de exportação e na satisfação de milhares de pessoas consumindo aquilo que um dia ele rasgou das ríspidas terras nordestes ao contrapor do vento.

20h00min - Era a hora de acabar com tudo, ao passo de uma vontade tenebrosa de proferir todas as revoluções que lhe vinham por vez à cabeça. Porém, se lembrava com infelicidade que não era digno de tamanho ato, não possuía a "coragem" de um Dom Quixote ou a astúcia de um capitão da areia. Contentava-se muito com o pouco e nada seria capaz de mudar aquela subjetiva mente de exatas cinco primaveras. Pegava sua surrada mochila, colocava em suas sensíveis costas e numa sensação de liberdade ia embora. Deveria voltar tudo que percorrera no caminho de ida, porém a passos mais delicados e cuidadosos, pois a estrada era ausente de luz e o caminho era deveras esburacado. Já tinha decorado em sua cabeça todos os movimentos e direções.

21h00min - Após estabelecer um incrível tempo de uma hora, chegava em casa. Com a roupa marrom que um dia fora branca, beijava todos seus 8 irmãozinhos e seus pais queridos. Não perdia tempo em comer um pão surrado pelo suor de um dia de trabalho com a água (com o aspecto de um suco) de um rio próximo de casa. Após completar sua refeição, pegava seu livrinho maltrapilho que havia sido de seu avô, deitava naquilo que pelo menos achava ser uma cama e, a luz de um candeeiro desgastado pelo dia, brincava com aquelas letras que achava tão lindas, mas que não sabia para que serviam. Era o ápice do seu dia que, mesmo durando pouco, lhe proporcionavam eterno prazer. A partir disso, acabava a “leitura”, apagava o resto de luminosidade e ia dormir com o mesmo pensamento otimista de sempre:


- AMANHÃ SERÁ UM NOVO DIA.


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